Vale a pena ser moderado?

Celso Rocha de Barros

A maioria dos textos apresentados para discussão durante a preparação do próximo Congresso do PT dão a impressão de que foram escritos por gente pensando “Olavo deveria ter tido razão”.

Todos querem que o PT seja mais bolivariano, mas intervencionista, mais radical, e ninguém parece entusiasmado com o que André Singer chamou de “reformismo fraco” do lulismo. Há quem faça a autocrítica dos casos de corrupção, mas pouca gente parece disposta à moderação em questões programáticas.

É fácil entender porque isso está acontecendo.

Foram dois anos de massacre depois de dez anos de acordos difíceis. O final do ciclo petista, em que Dilma foi traída por todos os seus aliados de centro e de direita enquanto tentava, finalmente, fazer um ajuste fiscal rigoroso, deixou a militância com pouco entusiasmo por compromissos. Para a militância petista atual, aliado de direita é um sujeito que você tem que comprar para que ele vote a favor do programa do partido dele.

Além disso, o clima político internacional não favorece a moderação. Muita gente acha, por exemplo, que o esquerdismo liberal de Hillary Clinton favoreceu a vitória do populismo conservador de Trump. Ninguém quer abrir o flanco do voto popular para a direita antiliberal de Bolsonaro.

E, finalmente, a esquerda está radicalizando porque ninguém está vendo muita disposição para conversar do outro lado.

No momento atual, a Rede Sustentabilidade tem o melhor programa de governo da esquerda brasileira. Suas propostas combinam satisfatoriamente responsabilidade econômica, redistribuição de renda e ambientalismo.

A Rede tem tentado participar do debate sobre o ajuste fiscal no Congresso de maneira mais propositiva.

E ninguém lhe dá a menor bola.

Tanto na votação da PEC do teto de gastos quanto na votação picareta sobre terceirização na semana passada, lá estava o deputado Alessandro Molon falando em nome da turma de Marina Silva, propondo modificações que tornassem o ajuste mais equitativo. Nenhuma foi discutida a sério pelos governistas.

Os deputados conservadores são maioria, já estão todos comprados com cargos, e ninguém tem medo da esquerda desde que o PT caiu.

Por mais que me deprima dizer isso, não há, no momento, qualquer incentivo para a esquerda moderar seu discurso. A militância de esquerda não quer voltar ao mesmo jogo político, a direita quer comprar sua anistia na Lava Jato com reformas liberais que agradem o empresariado, e o clima político no mundo não é de moderação.

Mas ninguém deve fazer estratégia só pensando no ponto em que se está. Nisso, como em tudo, devemos fazer como o Zico: não lançar a bola onde o centroavante está, mas onde ele vai estar.

A correlação de forças vai mudar nos próximos anos, e talvez antes de 2018. Essa marra com que os parlamentares conservadores têm agido vai murchar quando o voto voltar a contar. A Lava Jato agora vai explodir na direita. E a moderada Hillary pode ter perdido para Trump, mas o radical Corbyn tampouco foi capaz de parar o Brexit. Não adianta proteger demais o flanco esquerdo e perder o centro.

De qualquer forma, será muito ruim se a esquerda ainda estiver no seu trabalho de luto quando a chance de vitória passar de novo na sua frente.

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