Temer está assustado com o agravamento da crise

Ricardo Noblat

De público, ele não admite. Do mesmo modo que um ministro da Fazenda, por exemplo, não admite jamais que a situação econômica possa piorar. Caso admita, ela piora.

Mas o presidente Michel Temer sente-se duplamente afetado pelo conteúdo das delações dos executivos da Odebrecht.

Primeiro porque ele foi alvo das delações, e embora esteja protegido pelo exercício do cargo, arrisca-se a perder mais um naco da rarefeita popularidade que lhe resta.

Não há registro de caso de presidente da República com popularidade abaixo de zero. Mas no momento, ele tem algo como apenas 10% de aprovação.

Segundo motivo: oito dos ministros do governo serão investigados com base nas delações – entre eles os dois mais próximos de Temer: Eliseu Padilha e Moreira Franco.

É inevitável a comparação do comportamento de Temer com o comportamento de Dilma no primeiro ano do seu primeiro mandato.

Na época, travestida de Faxineira Ética, Dilma demitiu cinco ministros em menos de 12 meses, suspeitos de corrupção, apenas suspeitos. Temer está disposto a manter os oito investigados. A comparação é desfavorável a ele.

De resto, um governo quase parlamentarista como o de Temer cai de cama com febre alta ao primeiro espirro do Congresso.

Fosse esta apenas uma gripe e já seria motivo de preocupação para Temer. Mas não há vacina que imunize o Congresso contra o mal que ameaça devastá-lo.

Senadores e deputados faltaram, ontem, ao trabalho. E não se sabe se a maioria desembarcará, hoje, em Brasília a tempo de dar quórum para a retomada de votações relevantes.

O fantasma da paralisia da República é o que mais assusta Temer. Daí seu empenho em promover sucessivas reuniões desde o final da semana passada e conceder entrevistas quase que diariamente.

Daí também a pressa que Temer tentará imprimir à votação de algumas matérias. Ele imagina que a Câmara poderá aprovar, hoje, o projeto de renegociação das dívidas dos Estados, e – quem sabe? – um requerimento de urgência para apressar a tramitação da reforma trabalhista.

A reforma da Previdência, joia da coroa oferecida pelo governo como garantia do seu futuro êxito, subiu no telhado e lá permanece. Por ora, ninguém pode garantir que destino terá.

Temer está fazendo todas as concessões que pode para viabilizar a reforma.

O perigo é que de concessão em concessão, ela cabe completamente desfigurada, sem produzir os efeitos desejados.

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