Desencanto e crise impulsionam êxodo de brasileiros abastados para Lisboa

Folha

Hoje, 85 mil brasileiros são residentes regulares no país, com visto de trabalho e estudo.

Aqueles que entram com passaporte português somem das estatísticas.

Assim como detentores de cidadania italiana ou espanhola que trocam o Brasil por Portugal.

De olho neste potencial, as imobiliárias e incorporadoras portuguesas fazem fila para realizar eventos no Brasil, segundo a Câmara de Comércio Portuguesa.

“Os brasileiros descobriram Portugal há pouco.

Tinham fascínio pelos EUA, só queriam ir para Miami”, diz Pedro Lancastre, diretor da JLL Consultoria Imobiliária. Hoje, o Brasil responde por 14% da clientela, seguido de França (7%) e China (3%).

A mudança de rota se faz sentir no boom imobiliário que elevou o preço dos imóveis de luxo em Lisboa e região em 19%, em média, nos últimos dois anos.

Ainda assim um investimento atraente, quando se compara o metro quadrado em áreas nobres de Lisboa (€ 8.000), Paris (€ 18 mil) e Londres (€ 27 mil).

Uma conta que influenciou o publicitário José Luiz Nogueira, 57, a se instalar com a família em um apartamento de 340 m² no centro histórico de Lisboa, em 2015.

O carioca pagou € 5.340 pelo metro quadrado do imóvel restaurado com sofisticação em um edifício de 1840 na região da Sé.

Desfruta de sete portas que dão numa varanda voltada para o rio Tejo e vista lateral para o castelo de São Jorge, dois cartões-postais da cidade.

“Financiei uma parte, sem a burocracia do Brasil e com juros de menos de 2% ao ano”, compara.

Brasileiros de classe média alta e rico, nos últimos três anos, encontraram além-mar um Eldorado para fugir da insegurança, do desencanto com a política e da crise econômica no Brasil.

“É um perfil acolhido com tapete vermelho”, constata Maria Rita Fontes Faria, cônsul-geral-adjunta do Brasil em Lisboa.

“Aqui, desfrutam do seu nível de vida, as crianças andam sozinhas em segurança, contam com boas escolas internacionais, além de saúde e educação públicas de qualidade.”

Um pacote que fez os Schultz deixarem a alardeada qualidade de vida curitibana para trás.

“Escapamos da violência”, diz Andrea. “Ficamos reféns de bandidos dentro de casa em um condomínio.”

Ao trauma se somou a descrença política.

“Não perdi totalmente a esperança no Brasil, mas não vejo solução no médio prazo. Só meus netos terão um país sem corrupção e violência.”

PONTE AÉREA

Dono de uma produtora de vídeo, Nogueira aventou morar em Paris quando chegou à conclusão de que São Paulo era inviável.

Acabou convencido pela mulher, Juliana Caus, 38, que tem passaporte italiano, a se estabelecer em Lisboa, com seus 500 mil habitantes, mas com todos os atrativos de uma capital.

“Ganho dinheiro no Brasil e vivo em Portugal”, resume. Ele passa 40 dias lá e 20 em Brasília, onde fica a sede da produtora.

Uma ponte aérea que vale a pena na ponta do lápis. Paga € 100 de condomínio e prestação mais barata que um aluguel, além ganhos enormes em mobilidade e qualidade de vida.

“Meus filhos de 13 e 10 anos andam sozinhos de metrô”, relata.

“Morar em Lisboa é deitar no sofá da avó. É uma sensação de pertencimento, além de os portugueses terem uma cortesia à moda antiga, que se perdeu no Brasil.”

BILIONÁRIOS

A mulher mais rica de Portugal é uma brasileira, brincam os patrícios ao se referirem a Regina Camargo, 66, herdeira da Camargo Corrêa.

Com fortuna estimada em US$ 1,9 bilhão, ela e o marido, Carlos Pires, dono da rede Raia Drogasil, escolheram viver em um prédio restaurado no Chiado, zona mais nobre do centro histórico de Lisboa.

O casal também transferiu residência fiscal para o país.

Procurados pela Folha via assessoria de imprensa do grupo, um dos protagonistas da Lava Jato e em processo de delação premiada, eles não se manifestaram.

O fato é alardeado dos dois lados do Atlântico quando se fala do êxodo recente de pesos-pesados do PIB nacional.

Até então, a opção era ter residência de verão em Cascais ou no Estoril, especialmente para famílias com laços de sangue com Portugal, como os Diniz (BRF, ex-Pão de Açúcar) e os Setubal (Itaú-Unibanco).

Expoentes das novas gerações, como Ana Maria Diniz, filha mais velha de Abilio, e o marido, Luiz Felipe D’Ávila, estão reformando um imóvel também no Chiado, onde o metro quadrado pode chegar a € 10 mil.

Já Gilmar Mendes, ministro do STF, optou por Príncipe Real, outra zona nobre, onde comprou apartamento no ano passado.

Com voo direto de Brasília para Lisboa, costuma passar feriados e planeja usufruir ainda mais do imóvel quando se aposentar.

“Temos uma comunidade de afetos em Portugal, de cooperação judicial e na academia”, diz ele.

“Além de um clima amigável em qualquer época do ano.”

Altos executivos brasileiros também se dividem entre os dois países. É o caso do vice-presidente de Comunicação, Marketing e Sustentabilidade do Santander, Marcos Madureira, 65.

Neto de portugueses, o santista restaurou a quinta da família no norte de Portugal.

“Morei seis anos na Espanha e comecei a recuperação da casa que pertenceu ao meu avô. É o meu refúgio para viver entre Brasil e Portugal quando me aposentar.”

Vaivém que caracteriza a rotina do atual presidente do Conselho de Administração do Santander, o português Álvaro de Souza, que vive em uma ponte aérea transatlântica.

O resultado é um fluxo intenso de jatinhos privados vindos de São Paulo e Rio no Aeródromo de Tires, que serve Lisboa e arredores.

CLÍNICA ANTIDEPRESSÃO

Com vida cultural intensa, excelente gastronomia e custo de vida relativamente baixo, a capital portuguesa virou porto seguro também para nórdicos e franceses, atraídos pelo clima ameno e pelas belas praias.

“Portugal se tornou uma espécie de clínica antidepressão da Europa”, diz François Manceaux, 56.

O cineasta francês se divide entre Paris e um apartamento no aprazível bairro da Lapa. “Na França, vivemos depressão econômica, crise de identidade e medo do terror”, pontua.

Ele chegou a Portugal em 2009 para fazer um documentário sobre a crise econômica na perspectiva de um pequeno país do sul do continente. Retratou os dramas causados pela bancarrota e também e os efeitos da política de austeridade imposta pela troica —FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia.

Com um pacote de reformas, a partir de 2012 Portugal começa a se tornar atrativo para investidores e aposentados, por exemplo, que ganham isenção de impostos por dez anos ao transferir domicílio tributário.

EFEITO TRUMP

Enquanto americanos e outros países na mira do terror fecham suas fronteiras, Portugal escancara as portas da para endinheirados de todo o mundo e vira meca de um mundo em crise.

“Já sentimos o efeito Trump. Além de brasileiros, temos muitos turcos, vindos dos EUA e da Turquia”, diz Jordan, ao contabilizar 26 nacionalidades, “uma míni ONU, entre moradores do Belas Clube.

“Portugal é barato, bonito e seguro, um santuário em um mundo em convulsão.”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s