O Pós-Temer

Celso Rocha d Barros

A discussão sobre quem sucederá Michel Temer em caso de eleições indiretas está particularmente horrorosa.

A classe política parece já ter decidido o que quer: um governo Temer sem Temer.

A mesma coalizão sustentando o governo, o mesmo programa, outro sujeito discursando no 7 de setembro.

O que se procura é alguém tão parecido com Temer que, se você colocar o sujeito na frente de Dona Marcela ou de Joesley, ele será chamado de “querido”.

Mas é preciso que o clone seja diferente de Temer em um aspecto importante: é preciso que não caia até 2019.

E aí complica.

A única maneira de garantir que o novo presidente sobreviverá até 2019 é escolher alguém que não esteja na mira da Lava Jato.

Até aí, a imensa maioria dos brasileiros dorme sem medo de Sergio Moro.

Mas a eleição indireta é no Congresso, onde quase todo mundo tem medo de Sergio Moro.

Na verdade, para esse eleitorado, no quadro atual, a proposta de campanha mais popular certamente será conter a Lava Jato.

No mínimo, o candidato vitorioso não pode criar problemas para as tentativas dos congressistas de se livrarem da cana dura.

Aqui você já deve ter notado que complicou: é muito difícil achar alguém que não esteja envolvido na Lava Jato e aceite acobertar a fuga de quem está.

Além disso, o candidato ideal a pós-Temer (repito, segundo as preferências de quem vai votar em caso de eleição indireta) também precisa dar alguma satisfação aos ricos brasileiros, que exigem reformas para voltar a investir.

Até aí, a coisa mais fácil do mundo é achar alguém para trabalhar para rico. Rico paga.

Mas também é necessário que o candidato ideal evite uma convulsão social.

A população brasileira é majoritariamente contra as reformas, e anda meio mal-humorada. Se alguém tem um plano para tornar as reformas mais aceitáveis

para o público, é uma indelicadeza que ainda não o tenha apresentado.

Ou seja, se o leitor não tiver nada a temer diante da Lava Jato, topar acobertar a fuga de quem tem, e tiver uma ideia para convencer a população brasileira a não botar fogo em nada em caso de aprovação das reformas, tem emprego para você em Brasília.

Uma outra saída são as eleições diretas. Elas dependem de reforma constitucional.

No caso mais razoável, elegeríamos alguém para governar só até 2019, com direito a reeleição.

É difícil uma emenda dessas passar. Os congressistas estariam desistindo de uma eleição em que só eles votam.

O empresariado, a direita e a maior parte da imprensa são contra as diretas, por medo de uma vitória de Lula.

O medo, aliás, às vezes desorganiza o raciocínio.

O deputado Jair Bolsonaro, por exemplo, tuitou que a esquerda quer eleições diretas porque a votação ainda seria feita com urna eletrônica, o que permitiria a eleição de Lula.

Como o PT fraudaria as eleições estando na oposição é algo que o deputado não achou por bem esclarecer, mas, enfim, Bolsonaro não está no ramo de dizer coisa com coisa.

De qualquer forma, muitos esquerdistas iludidos (por exemplo, eu) continuam brigando por eleições diretas.

Em algum momento será necessário trazer os eleitores de volta para a conversa.

Fazê-lo agora tem seus riscos.

Esperar mais um ano sob um governo eleito pelo Congresso tem outros.

Não me parece tão claro que estes sejam menores do que aqueles.

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