Prefeito de Natal ao propor revitalizar o Alecrim enfrenta resistências iguais a ideia da Torre Eiffel

Editor

Não se trata de elogio ao prefeito Carlos Eduardo, de Natal.

Por dever de justiça deve ser registrada a sua segurança e determinação, ontem, 2, na audiência pública, realizada na Câmara Municipal, que discutiu o desenvolvimento do futuro do bairro do Alecrim, na capital.

O debate foi iniciativa do vereador Ney Júnior, que presidiu os trabalhos, durante mais de quatro horas.

Opiniões divergentes foram expostas, o que é democrático numa Casa do Povo, como a Câmara Municipal de Natal.

Sobre aqueles que se opuseram à proposta de “revitalização” do Alecrim, inclusive a relocalização do teatro Sandoval Wanderley, vale a pena lembrar Voltaire: Não concordo com o que dizes, mas defendo até a morte o direito de o dizeres”.

Conheço bem o Alecrim.

Lá nasci e vivi até a minha adolescência.

Nunca me desvinculei dessa área da cidade e alegra-me ver o meu filho, vereador Ney Jr, preocupado em contribuir para maior crescimento e desenvolvimento daquele recanto histórico de Natal.

Há, entretanto, um aspecto a considerar.

Por mais que sejam legítimas as opiniões contrárias, existem situações óbvias, incontestáveis, para cujo entendimento é necessário usar a racionalidade.

Afinal, ninguém pode imaginar, que uma administração pública municipal, no Brasil de hoje, possa assemelhar-se aos devaneios do matemático inglês Lewis Carroll, que no clássico Alice no país das maravilhas”  descreveu a entrada numa toca de coelho e o universo onírico que encontrou.

Infelizmente, o país e a cidade de Natal nenhuma semelhança têm com um universo onírico.

Como bem disse o prefeito Carlos Eduardo, uma única coisa é certa: o Brasil está “quebrado”. Não há dinheiro.

O Teatro Sandoval Wanderley do Alecrim está fechado há mais de oito anos e – como frisou o vice-prefeito Álvaro Dias –, nunca houve movimento na área cultural para reabrí-lo, ou buscar soluções.

Agora, o Prefeito propõe uma alternativa concreta, objetiva, partindo do princípio correto de que a vocação do Alecrim é o comércio.

Aliás, sempre foi e será.

Quem viaja pelo mundo constata áreas comerciais, distantes dos centros das cidades, igualmente revitalizadas (ou “revolucionadas”, como diz o vereador Ney Jr), no modelo proposto pela PMN para o Alecrim.

São exemplos a rua 25 de março, em SP; rua da Alfandega, no RJ, comércio intenso ao lado da Praça Aligre e Saint Queen (marché aux puces ), em Paris; crescimento comercial nas redondezas da “Praça Alexanderplatz” em Berlin; o avanço do bairro “Notting Hill”, em Londres, após o filme “Um lugar chamado Notting Hill” e tantos outros.

No caso do Alecrim, o prefeito foi claro ao afirmar que com dinheiro público não há como aplicar “um centavo” no Teatro Sandoval Wanderley, em estado atual de penúria.

Por outro lado, essa história de alternativa que abranja as carências de saúde, educação, segurança, espaços viários etc são verdadeiras, porém irrealizáveis ao mesmo tempo.

Há que ser adotado comportamento realista e objetivo, por etapas.

Nessa situação, que mal fará um projeto, em parceria com a iniciativa privada, que dinamize a atividade comercial no bairro, oferte empregos e oportunidades, elaborado à luz do meio dia, com transparência, debates prévios e conhecimento público?

O Alecrim abriga quase 6 mil empresas e arrecada cerca de 44% do ICMS que é gerado na capital potiguar.

A expectativa é a geração de mais de dois mil novos empregos, além de garantir maior fluxo de pessoas no bairro.

O competente secretário da PMN, Dácio Galvão, um homem comprometido com a cultura, pela sua formação intelectual, aclarou os propósitos da Prefeitura e não deixou dúvidas.

As objeções ao projeto de revitalização do bairro do Alecrim, de ordem política, ideológica e corporativista, lembram  o manifesto publicado em 1887 no jornal “Le Temps“, de Paris, sob o título “Protestation contre la tour de M. Eiffel” (Protesto contra a construção da Torre Eiffel).

Eis trechos do manifesto citado:

“Nós, escritores, pintores, escultores, arquitetos amadores apaixonados pela beleza até aqui intacta de Paris, vimos protestar com todas as nossas forças, com toda a nossa indignação, em nome do bom gosto francês, ao qual não se está fazendo justiça, em nome da arte e da história francesa ameaçadas, contra a ereção, em pleno coração de nossa capital, da inútil e monstruosa torre Eiffel, que a língua ferina do povo, frequentemente impregnada de bom senso e de espírito de justiça, já batizou de torre de Babel.

A cidade de Paris vai associar-se, por período tão longo, às bizarras e mercantilistas ideias de um construtor de máquinas, para se enfeiar irreparavelmente e se desonrar? 

“É suficiente, ademais, para que se renda conta do que antevemos, imaginar um instante uma torre vertiginosamente ridícula, dominando Paris, como uma negra e gigantesca chaminé de usina, humilhando com seu vulto bárbaro todos os nossos monumentos, amesquinhando toda nossa arquitetura, fazendo-os desaparecer”.

 “Desse sonho absurdo, e durante 20 anos [quando se previa desmontar a torre], veremos se alongar sobre a cidade inteira, na qual freme o gênio de tantos séculos, como uma mancha de tinta, odiosa coluna de ferros aparafusados.” 

Qual o “final dessa ópera” em Paris?

O mundo conhece.

A Torre Eiffel tornou-se o símbolo de Paris, atraindo o turismo, gerando empregos e oportunidades.

Como alecrinense de coração, o que desejo é que o prefeito Carlos Eduardo e a sua competente equipe não desistam.

Prossigam no propósito de ser dado o “primeiro passo” para a revitalização revolucionária do Alecrim, em Natal, até, se for o caso, aperfeiçoando a proposta inicial.

A solução dos outros problemas do bairro – saúde, educação, segurança etc – virá logo que a economia se recupere e exista disponibilidade de recursos.

O que não se justifica é omitir-se agora, por não ser possível atacar tudo de uma só vez!

Audiência pública, realizada ontem, 2, na Câmara Municipal de Natal, por iniciativa do vereador Ney Jr, para discutir proposta de desenvolvimento para o bairro do Alecrim, em Natal, RN.

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