Ricardo Noblat: “PSDB é uma nau à deriva, desgovernada”

Ricardo Noblat

A nove dias da sessão da Câmara que decidirá sobre o pedido de licença para que o presidente Michel Temer seja julgado por corrupção, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), o terceiro maior do país em número de filiados e o segundo em número de governadores e de ministros de Estado, ainda não sabe se é a favor ou contra.

Por não saber liberou seus 46 deputados para que votem como quiser.

A um ano das convenções que indicarão os candidatos à próxima eleição presidencial, o PT tem candidato – Lula.

O PDT, também – Ciro Gomes.

O REDE tem – Marina Silva.

Até o minúsculo PSC tem candidato – Jair Bolsonaro, o segundo nas pesquisas de intenção de voto.

O PSDB não tem.

O governador Geraldo Alckmin (SP) quer ser.

O prefeito João Dória (SP), também. E até os senadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG).

Serra e Aécio, encrencados com a Lava Jato?

Sim, eles mesmos.

Serra prepara em segredo um programa de governo a ser apresentado ao partido no próximo ano caso tenha chances de ser candidato.

Afastado do mandato e reconciliado com ele por decisão da Justiça, Aécio enfrenta o pior momento de sua trajetória política com a certeza de que poderá se recuperar se não for atropelado por nenhuma nova denúncia de corrupção.

Temer e seus principais conselheiros dão como certo o desembarque do PSDB do governo – em breve ou no início de 2018.

E estão atrás de nomes de outros partidos para substituir os quatro ministros do PSDB e seus filiados que ocupam cargos nos diversos escalões da administração federal.

O PSDB ainda não sabe se desembarcará, e quando.

Se dependesse do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, seria logo.

Se depender de Alckmin, Serra e Aécio, nem tão cedo.

Ou talvez só depois das eleições, a ver mais adiante.

Se dependesse de larga fatia dos deputados federais e do presidente em exercício do partido, o senador Tasso Jereissati (CE), já teria desembarcado.

Tasso e Dória querem abreviar a condição de Aécio de presidente licenciado do PSDB.

Alckmin, Serra e demais cardeais do partido não querem.

Receiam o que Aécio sabe e possa dizer sobre como os candidatos do PSDB financiaram suas campanhas nas eleições passadas.

Ele está a par de tudo.

Mais do que isso: como candidato a presidente da República em 2014 e como presidente do partido em 2016, foi Aécio que se encarregou de arranjar e de repassar dinheiro para as principais campanhas.

Além do temor, há uma dívida de gratidão com ele.

É por isso que o alto comando do PSDB se reúne, discute qualquer assunto, dá palpites na vida de outros partidos, pressiona o governo, mas não trata da situação de Aécio.

Em sua mais recente reunião, em São Paulo, na presença de Aécio, Dória cobrou enfaticamente a retirada dele do cargo.

Tasso nada disse.

Os demais criticaram a atitude de Dória, inclusive Alckmin que já desejou presidir o PSDB.

Por mais que negue, Alckmin está para lá de incomodado com a pretensão de Dória de desbancá-lo como possível candidato do partido à sucessão de Temer.

Dória finge desconhecer o incômodo e jura que jamais disputará com Alckmin uma eventual prévia para a escolha do candidato.

Que prévia? Dória aposta que não haverá nenhuma. E que o candidato será aquele que pontuar melhor nas pesquisas.

O PSDB é uma nau à deriva, desgovernada.

Não é sequer uma biruta de aeroporto que aponta para o lado que o vento sopra.

Piratas no Titanic (Foto: Antonio Lucena)(Arte: Antonio Lucena)
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