“Tribuna do Norte” publica artigo de Ney Lopes: “Sobre a reforma da Previdência Social”

Artigo de Ney Lopes publicado hoje, 14, na”Tribuna do Norte”, tradicional jornal editado em Natal, RN.

Há situações políticas incríveis, que só acontecem no Brasil.

Uma delas é esse “tour de force” do governo Temer, no sentido de forçar a aprovação da reforma previdenciária.

Para conter o déficit público, o governo esbanja dinheiro, com práticas de cooptação de parlamentares, transformando o Congresso Nacional em verdadeiro mercado persa.

Para atingir um objetivo considerado ético, praticam-se atos aéticos e de corrupção explícita, viciando, por antecipação, as eleições de 2018, na medida em que muitas renovações de mandatos serão consequências do “toma lá, me dá cá”.

A reforma da previdência é necessária. Porém, não se pode trata-la como um item de mercado, regulado pela lei da oferta e da procura, para agradar ou b.

Afinal, são milhares de pessoas humanas, que ao longo da via construíram sonhos de estabilidade e proteção social do estado e pagaram por isso mensalmente, sem isenções, diferimentos, ou juros negativos.

Claro que o déficit financeiro é preocupante e realmente existem abusos, a serem corrigidos.

Todavia, essa realidade de “privilégios” exige análise de “mão dupla” e não de “mão única”, como o governo vem fazendo.

O que dizer, por exemplo, de quem usufruiu cerca de 500 bilhões de reais (quase três vezes o alegado déficit) na desoneração recente no recolhimento da previdência, cujo objetivo era reduzir o desemprego, que no final terminou aumentado?

Outros exemplos como esse poderiam ser dados, todos eles semelhantes às condenáveis “cabines de empregos” dos governos, ou os salários extravagantes e condenáveis, de parte do serviço público.

Todos os países do mundo fizeram ajustes na previdência, sobretudo na elevação dos limites de idade e tempo para usufruir benefícios.

Todavia, os critérios usados foram gradativos, por etapas.

Vale lembrar a teoria de Durkheim, segundo a qual a sociedade funciona como o organismo biológico.

A semelhança do órgão humano, o corpo social entrará em colapso, se o remédio aplicado para a cura de enfermidades for excessivo.

Na França, desde 1993, estão em curso reformas na previdência.

Tudo em dosagens suportáveis pela sociedade, para evitar traumatismos sociais.

Na Alemanha, a partir de 1992, o governo alemão iniciou mudanças para manter o sistema sustentável.

A idade mínima das mulheres foi progressivamente igualada a dos homens ao longo dos anos seguintes.

No Japão, a primeira reforma previdenciária japonesa ocorreu em 1994, quando o governo aumentou a idade mínima para a pensão básica de 60 para 65 anos.

Percebe-se que a regra geral global é fazer reformas na previdência em dosagens possíveis e nunca como sangria desatada, causando choques e traumas, sobretudo nas camadas assalariadas.

Sabe-se que os excessos existentes no país têm origem remota.  Desejar corrigi-los do dia para noite, jogando o ônus nas costas dos mais fracos, lembra o personagem de Jô Soares, aquele sujeito que voltava à consciência, após anos em coma e ouvia as notícias contadas pelas pessoas.

Atônito, ele não acreditava no que acontecia no Brasil e optava para continuar inconsciente, exclamando “tira o tubo”.

Será que o país caminha para a maioria da população preferir “tirar o tubo”?

Deus queira que não!

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