Donald Trump: a terra arrasada

João Paulo Jales dos Santos. Estudante do curso de Ciências Sociais da UERN.

Uma leitura equivocada fez o Partido Democrata ter confiança na vitória de Hillary Clinton.

Uma conjuntura desfavorável fez sua candidatura ser derrotada por Donald Trump.

A derrota de Clinton fez vir à tona uma crise de identidade democrata.

Crise esta que existia há uns 5 anos, e os líderes partidários não quiseram reconhece-la.

Precisou-se de uma devastadora derrota para a identidade democrata vir a debate.

A classe trabalhadora sempre foi o pilar da estrutura do partido.

O grupo que ao longo do tempo ficou conhecido como sendo o Partido Democrata, e este sendo reconhecido como o legitimo representante dos trabalhadores.

Só que nos últimos anos fissuras nessa base apareceram.

Um distanciamento entre trabalhadores e partido surgiu.

Experientes analistas da cena política americana apontam como motivos para isso o apoio da legenda a medidas econômicas liberalizantes ao longo dos anos 1990, na presidência Bill Clinton, e o prosseguimento de tal política nos dois mandatos de Barack Obama.

Medidas traduzidas no apoio a globalização, que tanto lesou as classes média e trabalhadora estadunidense.

Apesar do clima bastante conservador que transcorreu a eleição de 2004, favorecendo a reeleição de George W Bush, John Kerry, candidato democrata naquele pleito, venceu três estados com alta concentração da classe operária, Wisconsin, Michigan e Pensilvânia.

Estados estes que foram fundamentais na vitória de Donald Trump.

Há ainda um dado que passou despercebido no decorrer das primárias democrata para indicação da candidatura do partido à presidência.

Bernie Sanders derrotou Hillary em Wisconsin e Michigan.

A forte agenda do senador de Vermont com uma mensagem vibrante para a classe trabalhadora o fez ter excelentes resultados eleitorais em estados que formam o que outrora foi a base da poderosa indústria da manufatura americana.

Como reconquistar esses eleitores é a pergunta que leva os líderes democratas a se debruçarem nos meios de como trazer para suas fileiras eleitorais aqueles que ainda são imprescindíveis para o êxito da agremiação.

As respostas para isso geram conflitos internos que dificultam uma estratégia eficaz para atrair esse grupo.

Eles tendem a voltar a entregar seu apoio aos democratas, mas não por causa do planejamento destes, e sim por outro fator, Donald Trump.

Eleito lançando mão de uma retórica incendiaria que teve como principal característica dividir o país, atacando uma elite política mal vista pela população, pode-se afirmar que Trump fez uso de uma estratégia de implodir de dentro para ganhar por fora.

Atacar ao máximo possível o establishment da nação, aquilo que ele chamou de o pântano de Washington, para ganhar o apoio do eleitorado branco suburbano e rural.

O ressentimento com a queda no padrão de vida, misturado com o racismo persistente no tecido social americano, eis o raciocínio para entendermos a vitória de Trump.

A ascensão do magnata é fruto de um planejamento de grupos ideológicos de direita que a partir da década de 70, na presidência de Richard Nixon, tiveram como questão principal usar de meios para fazer polarizar racialmente a nação, no que se passou a chamar de ‘estratégia sulista’ nas décadas de 70 e 80, incorporou-se em 90 aquilo que os conservadores convencionaram chamar de ‘guerra cultural’.

Se num primeiro momento pensou-se que o manual da política moderna construído nas últimas 6 décadas com sua vitória a Casa Branca havia perdido validade, nesse quase primeiro ano à frente da Presidência, Trump demonstra que as lições construídas durante todo esse tempo ainda continuam tão válidas quanto antes.

Se dividir para ganhar deu certo para eleger-se, esse comportamento na administração do país rende prejuízos que levam Trump a ser o presidente mais impopular nesse momento de mandato desde ao menos o fim da segunda guerra mundial.

Reunindo um staff de pessoas inexperientes sem grandes conhecimentos dos mais variados assuntos administrativos e governando para o extremo da direita do país, Trump caminha para afundar nos próximos anos o Partido Republicano.

As eleições realizadas neste 2017, especialmente a do senado do Alabama na última terça-feira, 12, são provas contundentes da situação delicada que se delineia para os republicanos nos próximos 4 anos.

Não há paralelo na política americana de um presidente tão catalisador de discórdia e ódio com a população.

O presidente tem ainda contra si uma agenda governamental com alta impopularidade perante a opinião pública.

Os democratas caminham para voltarem ao controle do Congresso do país nas eleições de 2018 ou 2020.

Não porque o partido possui uma coordenação para tanto, mas porque Trump faz um trabalho muito mal avaliado que torna permissível o êxito democrata.

Donald Trump corrói parte do pacto construído pela elite nos últimos 70 anos.

Sua presidência será um capitulo melancólico na história republicana e americana.

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